Chegávamos à quermesse eu, meu pai e minha mãe. Era a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus da Lapa. As festividades atualmente são bem animadas e conta com duplas sertanejas pra animarem a festa e possibilitar um maior público e consequentemente maior renda. Só o “santo” já não é mais capaz de mobilizar as pessoas.
Como chegamos um pouco tarde a festa já estava acontecendo e a dupla sertaneja tocava. A festa é montada com tendas modernas, TVs de LCD que passam o nome dos patrocinadores e os números dos bingos que corre no intervalo da dupla sertaneja (ou visse e versa). Comesse muitas coisas boas: frango, churrasco, espetinho, batata frita, cachorro quente, pastel...
Para entrarmos seguimos aquele fluxo que se faz naturalmente para se entrar nestes locais. Esse fluxo nos obrigava a passar bem perto do palco em que tocava a dupla. Logo percebi que todas as pessoas a minha frente desviavam enfaticamente de um homem que dançava bem no caminho. O homem era negro, estava mal vestido, sujo e estava visivelmente alcoolizado. Ele estendia à mão as pessoas que por ali passava e todas procuravam fingir que não o estava vendo negando apertar sua mão.
Meu pai estava a minha frente e não teve dúvidas em ignorar o homem. Logo depois eu passei por ele e quando ele me estendeu a mão eu segurei em sua mão e olhei para seus olhos. O homem parou de dançar no mesmo momento, olhou para nossas mãos juntas, olhou pra mim e me deu um abraço. Eu o abracei e na mesma hora minha mãe com cara de não estar entendendo nada me puxou pela camisa. Então dei um sorriso para o homem e continuei. Ele me observou por alguns instantes e continuou a dançar e as pessoas que continuavam a passar por ele continuavam fingir não vê-lo.
Cheguei perto de minha mãe que me perguntou se eu era “doido”?! Eu não respondi nada, mas fiquei pesando que eu olhei o homem e o vi. Ele me deu a mão e eu dei a mão pra ele. Ele me deu um abraço e eu dei um abraço nele.
Só fui capaz de reconhecer a humanidade além da aparência. A vida além dos farrapos. A leveza e a liberdade de um espírito livre. Enfim só respondi a cordialidade de alguém que me recebia em sua festa.
3 comentários:
Perfeito... Muito bonito o texto. Quando eu crescer vou fazer um desses. Abraços.
a uma festa do e para o povo, nada mais justo que um homem do povo na recepção. porém, quem desvia o olhar, ignora e todas essas atitudes que você discorreu não estão muito para o povo, então: por que sairam de casa?
Saíram de casa para consumir e mostrar-se. Saíram de casa pra encontrarem os seus. não são capazes e não querem ver além!
Abraços ao Fábio! rs.
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